“Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo,
Forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão [...]”
Milton Nascimento e Chico Buarque, O CIO DA TERRA
Diz um antigo ditado que “em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”. Até pouco tempo, desconhecia este ditado, que me calou fundo na alma, quando o li em uma matéria sobre pães caseiros.
Minha família vinha passando por dificuldades financeiras e houve dias em que não tínhamos dinheiro nem para o pão do café da manhã. A situação foi se agravando até que rezei muito, pedindo a Deus uma luz em meu caminho. Foi quando uma amiga convidou-me para ajudá-la em seu trabalho com salgados e bolos para lanchonetes, festas, enfim. Aceitei prontamente. E esta foi a minha salvação e de minha família.
Poucos dias trabalhando com ela me fizeram relembrar momentos passados nas cozinhas de minhas avós materna e paterna. A primeira preparava pratos deliciosos e petiscos triviais para abastecer o bar, que meu avô possuía bem próximo à Central do Brasil, famosa estação de trens urbanos, no centro do Rio de Janeiro. A segunda não ficava atrás. Cozinhava pratos maravilhosos, servidos em sua pensão, na zona norte do Rio, dos quais sinto o gostinho até hoje, ao me lembrar de sua macarronada ao molho de carne assada nos almoços de domingo, sem contar as sobremesas de encher a alma de doçura, e o estômago de satisfação, sem medo de ser feliz!
A pressa cotidiana, as facilidades da vida moderna deixaram para trás esses momentos em família, quando todos se reuniam à mesa, conversavam trivialidades, conheciam uns aos outros, o gosto, os amores, as desilusões de cada um, e em sentido de prece agradeciam pelo alimento daquele dia e pelo trabalho dos que se esforçaram para que aquela comida chegasse até ali: o agricultor, que arou a terra, jogou as sementes e torceu para que os céus enviassem sol e chuva na exata medida, a fim de que seu trabalho fermentasse e gerasse o fruto esperado; aos comerciantes, como o seu Manoel, da vendinha, ou o seu Carlos, do mercado, que compraram o produto do agricultor e o disponibilizaram em seus estabelecimentos, para que o consumidor pudesse levá-los à mesa; e, finalmente, o chefe da família que, entoando este agradecimento, reconhecia ali o esmero no trabalho da esposa e mãe, que se dedicava horas em pé diante de um fogão a preparar a refeição, que ora sua família desfrutava.
O trabalho com os salgados me fez reviver não apenas todos esses momentos esquecidos em um passado distante, mas aprender o sentido da gratidão por aqueles que trabalham com o alimento, de modo geral. O agricultor, o padeiro, o cozinheiro, o doceiro, o gastrônomo, até mesmo o sorveteiro, o baleiro e o pipoqueiro de minha infância.
A salvação sobre a qual referi-me veio através do pão, o qual aprendi a fazer e no qual encontrei o sustento não apenas do físico, mas também da alma e da dignidade, minha, de meu marido e de nossas filhas. Aprendi a forjar no trigo não só o milagre do pão e dele me fartar, mas forjar o espírito de gratidão por mais aquele dia e pela possibilidade de estar ali, trabalhando o alimento com o espírito sereno, grato, repleto pela dádiva de mais um dia poder levantar, olhar meu marido e minhas filhas, entrar no recinto sagrado de minha cozinha e preparar o pão daquele dia, a fim de servi-lo à minha família e aos meus vizinhos e amigos.
No milagre do pão, aprendi a fartar nossa mesa de familiares e amigos, com muito mais alegria, companheirismo, conversa fiada e risadas, entre uma garfada e outra e um gole da bebida preferida; aprendi a encher nossa vida de momentos deliciosos passados naquela simplória e cotidiana reunião de família que espero, um dia, sejam relembrados por nossas filhas, quando a cena se repetir em suas casas, cada uma com seus maridos e filhos, assim como quando hoje relembro minhas avós, cozinhando pedacinhos de amor naqueles pratos maravilhosos, os quais me enchem a alma de gratidão e saudade por terem me proporcionado momentos deliciosos de minha infância, perpetuando, assim, o alimento de minha memória afetiva. Bendito seja o pão nosso (sagrado) de cada dia!