por Sandra Caldas Lourenço*
Esta é a tônica da Cerimônia do Chá.
China – o início de tudo
A milenar arte do Chado (茶道), popularmente conhecida como Cerimônia do Chá – Chanoyu 茶の湯, ainda é um tanto desconhecida do povo ocidental. Sua história remete-se a eras muito distantes ainda na China antiga, cujo registro mais remoto a respeito do chá é o Tunyo (contrato de comércio de escravos), escrito por Wanfun, no ano 59 a.C. Dentre as diversas funções atribuídas aos escravos, descrita no Tunyo, está a de preparar e servir o chá para as visitas recém chegadas à casa dos senhores.
Outra obra antiga, o Sankuotsu (Registro dos Três Reinos – 220-280 a.C), escrita por Chengsu, que viveu no período Chin da antiga China, descreve sobre a colheita e o cozimento do chá pelos chineses da dinastia Wu. A obra também retrata a difusão da folha de chá silvestre desde o seu local de origem, na província de Yunnan até a região de Tszechwan.
Embora a história do chá tenha início em eras muito remotas, sua difusão e consumo propagaram-se mais amplamente na dinastia Tang (618-907), espalhando-se por todo o território chinês, chegando ao Japão através dos monges japoneses que iam à China estudar o zen budismo nos mosteiros Zen. Em 760, o escritor Lu Yu escreve o Chaking (Sutras do Chá), considerado o mais antigo registro sobre o Chado (caminho do chá). Neste, o autor ressalta o uso correto do chá e sua filosofia descritos em dez capítulos, divididos em três volumes.
Da China para o Japão
A princípio, segundo os mestres do Chado, chá é chá e religião é religião. Mas é impossível dissociar a filosofia do Chado da filosofia zen. Chá e Zen budismo estão intimamente ligados.
O budismo ortodoxo foi introduzido no Japão no século VI. O regente do império, à época, era o príncipe Shotoku Taishi, que se tornou grande propagador dos ensinamentos budistas, patrocinando a construção de vários templos que, posteriormente, tornar-se-iam importantes centros de arte. Entretanto, a seita budista que mais se propagou no Japão foi a Zen, introduzida em solo nipônico no século XII, período Kamakura. É neste mesmo período que o monge zenista Eisai introduziu o matcha (chá verde em pó, proveniente da camelia sinensis) naquele país, substituindo assim o chá em tijolo, em uso no Japão desde o século VIII.
Em pouco tempo, o hábito de beber chá, antes praticado apenas pelos monges budistas, a fim de manterem-se acordados durante a meditação noturna, foi sendo difundido e adquirido pelos nobres e pela classe samurai 侍, atingindo também as comunidades rurais. Assim, tornaram-se comuns as chayorai (reuniões de chá), onde se promoviam concursos em que os participantes deveriam identificar a origem dos vários tipos de chá.
Chado e Zen
1ª fase
O príncipe japonês Ikkyu (1394 – 1481), também monge zenista do mosteiro Daitokuji, em Kyoto, inicia a aproximação do Chado ao Zen. Seu discípulo, Murata Shuko (1422 – 1502) é quem realmente transforma a Cerimônia do Chá. Foi o primeiro a projetar para seu patrono uma sala de chá de quatro tatami e meio, instalada no Jinkakuji (Pavilhão de Prata), patrimônio cultural do Japão. Também foi o primeiro mestre de chá a valorizar a cerâmica japonesa e a adaptar a Cerimônia do Chá ao estilo nipônico. Vale registrar que a Cerimônia do Chá chinesa é completamente diferente da japonesa, tanto em utensílios e na manipulação destes, quanto na estética.
Murata Shuko passa a utilizar o shodo (caligrafia) como elemento de decoração para o tokonoma (espécie de alcova, comum nas típicas casas japonesas); cria utensílios e valoriza a produção destes no Japão, ao invés de utilizar os chineses e coreanos, até então considerados mais requintados e belos. É ele quem também baseia as normas regulamentadoras da Cerimônia do Chá no código de honra e boas maneiras dos samurais, conhecido como Bushido, e regulamenta a etiqueta seguida pelos monges zen durante as refeições.
2ª fase
Embora Murata Shuko tenha tido relevante importância na primeira fase de desenvolvimento da Cerimônia do Chá japonesa, é através de Sen-no-Rikyu, também monge zenista do séc. VXI (período Momoyama, 1573 – 1603), que o chanoyu obteve sua estrutura estética definitiva, conforme é conhecida nos dias atuais. Rikyu foi homem de grande poder e tornou-se o conselheiro predileto do ditador Hideyoshi Tokugawa.
A era Momoyama foi culturalmente prolífera para o Japão, após vários períodos de sucessivas guerras. E é nessa época que surge um novo conceito de beleza e estética, sob a inspiração de Rikyu, o qual veio determinar o gosto japonês para o simples, o despojado, o essencial, perpetuado através dos séculos aos nossos dias. Além de estabelecer as regras definitivas do chanoyu e seus princípios basilares, o mestre Rikyu cria o modelo de chashitsu (sala de chá), e de seu jardim.
O Caminho do Chá reside muito mais na atmosfera espiritual que está por trás de sua filosofia que propriamente ao ato de fazer e beber o chá. De acordo com o mestre Rikyu, o chajin (homem de chá) deve saber criar na sala de chá, através do ritual rígido e de sua participação total, a atmosfera adequada para que a harmonia, o respeito, a pureza e a tranqüilidade, princípios do Chado, sejam sentidos e vividos intensamente em “um encontro, um momento único que jamais se repete” (itigo itie), por todos os participantes da cerimônia.
* Jornalista, pesquisadora da cultura oriental.
Praticante da Cerimônia do Chá, no Centro de Chado Urasenke do Brasil, SP. Membro da Urasenke Foundation, em Kyoto, Japão.
“Em minhas mãos seguro uma tigela de chá. Vejo toda a natureza representada em sua cor verde. Fecho os olhos, e encontro o verde das montanhas e a água cristalina em meu coração.
Silenciosamente, sentado sozinho bebendo o chá, sinto tudo isso se tornar parte de mim. Ao compartilhar essa tigela com outros, eles também se tornam unos com a natureza, de modo que encontramos uma tranqüilidade duradoura em nosso interior, ainda que estejamos acompanhados.
Esse é o paradoxo do Chado, o Caminho do Chá.”
Sen-no-Rikyu, primeiro grão-mestre Urasenke
Bibliografia pesquisada:
•Soshitsu Sen-XV, Vivência e Sabedoria do Chá, T.A. Queiroz, editor SP, 1981;
•Centro de Chado Urasenke do Brasil, Chanoyu – Arte e Filosofia, SP, 1995;
